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Giló - O Papagaio Indiscreto

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Giló - O Papagaio Indiscreto

O Mar como escola, a Ria como lar.

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      As pescas constituem um fenómeno considerável, ligado a inúmeros aspetos da vida portuguesa, apesar de nem sempre se tornarem em objeto de reconhecimento. Muito há por aí quem não tenha a noção do que é ou foi a pesca ou do que é ou foi ser pescador...

     Quando partem para o mar, um pouco de norte a sul, sejam os bacalhoeiros, - sejam os costeiros retratados diversamente por Redol ou Brandão, ou abordados graciosamente pelo próprio Garrett, que não se esqueceu de elogiar a fibra dos Ílhavos!!! - ou as próprias companhas da Arte Xávega, não partem só os homens - pescadores: partem ficando, junto à areia, ou à beira da barra, famílias inteiras, esposas e filhos, netos e avós; as terras tremem fracionadas, preparadas para o luto, venha ele ou não. A História repetiu-o incontavelmente no passado, ainda que o faça, também, no presente, embora mais timidamente,  já não com tanto peso dramático, por força de um maior avanço técnico e pela erosão da própria atividade. 

     Era quase sempre assim - lembremo-nos, por exemplo, da Nazaré e dos seus trajes negros, dos gritos aflitos na Póvoa, nas Caxinas: enquanto uns seguiam nas embarcações, os que não podiam ir eram que nem estátuas negramente agarradas e imóveis junto à embocadura, à beira da praia, no molhe, de espírito encolhido, sem saberem bem, no conflito gerado entre a alma e o corpo, se verdadeiramente ficavam ou se, pelo contrário, partiam também.  E a Nazaré repetia-se sempre e em todo o lado, em tantas outras "Nazarés", costa fora.

     Lá entregavam as mães os seus filhos às mãos sacanas da Morte! Não havia saída - só a inevitabilidade da tangência com o perigo e com a morte, por força maior das necessidades imperiais de subsistência, da rudeza de vida; por tudo isto as comunidades do litoral tornam-se em espaço de forte afetação emocional e espiritual, dado este incontornável na tentativa de comprensão dos próprios rituais religiosos, e na interpretação das trágicas vivências coletivas das populações de alma marítima.

   Aveiro, as suas gentes ribeirinhas e os seus vizinhos dos concelhos próximos nasciam e, ainda nem bebés, já estavam a molhar logo os pés no próprio berço (se o havia), tal a proximidade da Ria e da vaga do mar; alguns os houve que chegavam a nascer, mesmo, dentro das bateiras e saleiros: a mulher dava à luz durante a noite, deitada nas tábuas do fundo do bote, surpreendida pelo irreverente ganapo que queria sair teimosamente...e tudo acontecia ali!! E ao romper da aurora já estava a mãe de ancinho na mão, a ajudar a puxar o moliço; à tarde, lavava os cueiros dos filhos na água salgada. Muitos dos filhos de Aveiro, de Ílhavo e das Gafanhas, não tinham pulmões, tinham guelras e, em vez de pés, barbatanas!

   Na verdade, a pesca, como parte natural do movimento marítimo, num país tão extensamente costeiro como Portugal, sempre constituiu um dos  elementos angulares, não só de sustento da economia - muito para além das próprias comunidades marítimas - mas também de construção da identidade nacional, alvo onde diversamente se recuperam orgulhos feridos, histórias adormecidas, duras como pedra  ou, de forma mais ou menos mecânica, se apela à identificação das gentes e afinação do sentido histórico-trágico do nosso povo.

    A história litoral de uma fatia das gentes aveirenses é uma realidade inegável, discursivamente mediatizada  e adornada através da voz de poetas, escritores e outros artistas que diversamente se foram deslumbrando com o apelo e os tons da condição marítima local. 

   Um tema como o da atividade piscatória na nossa costa e no alto mar, de Viana à Figueira, sem esquecer outras gentes de pés na água salgada, mas em especial das gentes da zona de Ílhavo, deixa-nos de lágrima no olho, infla-nos o peito de orgulho por esta fatidicamente ser uma região de coragem extrema, de forte implantação e tradição lagunar e oceânica, e pelo facto das atividades piscatórias terem  também marcado, ao longo dos séculos, a fisionomia da região, numa mistura quase inédita entre terra e mar, na medida da sua economia, do trabalho, da busca azeda pelo pão, do condicionamento familiar e moral das suas pessoas, povo que não só sempre teve a Ria e o Mar como escola e como lar, como palco de luta mas, infelizmente,  do mesmo modo fatídico, tantas vezes, como destino final.

Saudações a este povo!

 

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