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Giló - O Papagaio Indiscreto

Aqui no Papagaio e no Sapo Blogs outra vez? Pá! Vão à praia, façam amor com a(o) namorada(o)... evitem é perder o vosso precioso tempo neste botequim! Podiam, pelo menos, ter o bom gosto de escolher outro blog Papagaio

Brincar com o cancro...?

 

cancro.jpg

 

   Piadas há muitas e se quiseres fazer rir, tens muitas maneiras por onde escolher, sem escolheres, por força, a mais bicuda! 

 

    Ao contrário do que o Guilherme Duarte se esforça por argumentar, brincar com o Cancro não é brincar com a morte, (que redondo equívoco!); antes disso será brincar com o sofrimento das pessoas, local onde se encontra o problema. E isso é largamente diferente,  porque morrer, morremos todos, mais cedo ou mais tarde, é a nossa condição; e quanto a ela não há volta a dar! Mas morrer de cancro não é para todos, não morremos TODOS de cancro! Nem todos os que ocupam os corredores do IPO ou que se encontram em casa, em enorme desvantagem na vida, terão condições, porventura,  sequer para dar uma gargalhada, por mais que o queiram.

   Por isso, desculpem-me a opinião - já que o Sapo Blogs é o espaço das opiniões, eu também tenho direito à minha! -  mas não acho, logo num primeiro momento, grande piada à ideia deste evento no S. Jorge. Soa-me, no mínimo, a algo esquisito e de gosto um tanto ou quanto duvidoso. Quanto ao argumento agregador e pacificador do desejo de catarse sobre a Morte, a anedota para afastar os receios, o riso como forma de enfrentar o Medo, também tudo isto tem o seu limite e apresenta contornos de falácia mal colada. Peço desculpa, novamente, mas é aquilo que genuinamente me parece.

    A Morte é tão real que nos parece ficção, é tão sombria que quase fingimos não a conseguir ver na penumbra - fica sempre adiada sine die, por isso gozamos com ela, como um fantasma distante. A doença, por seu lado, vive todos os dias connosco, na nossa vizinhança, faz-nos sofrer no corpo e na alma, retira-nos o sentido de troçarmos da morte, isto porque a efetiva, a aproxima, sem que seja nosso desejo. 

     Conversar é uma coisa, deitar piada, é outra!  Por mais que o auditório esteja cheio, (e porque vai estar a abarrotar de curiosos e de figuras com camisetas solidárias) com gente a morrer a rir - alguns até com diagnóstico de cancro - haverá uma imensa multidão que não irá ao espetáculo e que não terá assim tanta facilidade para achar graça. Eu não sofro de cancro, neste momento, e não vos acho com muita mira para terem acertado em cheio na mosca,  encontrado o veio inédito do riso. Digo isto mesmo sem conhecer o espetáculo e nem assim me coibo de pensar desta maneira; mesmo dando o benefício da dúvida, creio que se eu sofresse de cancro não encontraria que se tivessem reunido as condições ideais para fazer tal paródia. O " falar livre daquilo que nos assusta" é um barro que não pega muito bem, aqui!, ao que me parece. Afigura-se-me argumento esfarrapado e um pisar de linha meio tenebroso, mesmo para os tempos pretensamente liberais em que vivemos. Na verdade, até me parece que um evento destes só irá para a frente e ganhará "pernas para andar" porque alguém vaticinou, para tudo isto, uma certa onda de polémica, uma messe de   pasto farto e com combustível para fazer enraivecer certas opiniões, para dar à luz o "viral". Aliás, alguns dos nomes do cartaz são adeptos ferrenhos da polémica e do viral. Quanto mais, melhor!

    Dirão que é um espetáculo solidário, que as doenças oncológicas constituem assunto sério e que a intenção não é desdenhar. Se tudo isto colhesse no espírito e no humor de toda a gente,estaríamos perdidos! O que mais faltava era que, então, vossas excelências organizassem, também, um espetáculo similar para as perturbações do espetro autista, para a Demência ou Alzheimer,  quem sabe para os invisuais, fazer piadas com encontrões, derrapadelas ou com cores. Qualquer coisa passa a valer, visto assim, não é? Sois humoristas reconhecidos e isso traz-vos largueza, palmadas nas costas e aceitação q.b.. E se fosse eu - um pobre palerma que ninguém conhece - a organizar uns "sorrisos" do género dos vossos? Por  exemplo, um piadão inocente sobre um arrendamento rural, no céu, para neoplásicos em turismo? Seria rotulado de "besta hedionda"!, certamente! Mas como são estrelas da blogosfera e do "stand up"... já o cenário muda de contornos!

  E para quando, então,  lembrarem-se de um espetáculo solidário no S. Jorge sobre a catarse da Guerra, - não hesitem em escolher a Síria, que também deve haver imensa gente a achar piada aos refugiados e aos bombardeamentos. Encontrem um refugiado sírio e usem-no como aproximação e legitimação do evento!, tal como estão a fazer com a abordagem e com o convite que vos foi lançado.

   Por mais que os organizadores do evento tentem explicar que o fundo das receitas reverte para o IPO, não servirá de desculpa; para ser franco, essa atribuição dos donativos ao IPO parece tão convenientemente certeira que se assemelha a uma estratégia de marketing espiritual com objetivos de aceitação pública. Dá ares de nobreza, mas para uma atitude que, sem esses ares, não sobreviria perante as garras da polémica. Obter o aval de quem já sofre da doença não confere legitimidade, tampouco. No mínimo, talvez se aceitasse que vossas excelências, organizadoras do espetáculo, fizessem um referendo aos milhares de doentes oncológicos... ainda assim...

    Uma pergunta ao Guilherme Duarte, ao Diogo Faro, à Rita Camarneiro: imaginem-se a passar por uma leucemia terminal, por uma neoplasia metastisada ou por um tumor no pâncreas em estádio IV, sem cura; imaginem-se completamente ausentes de esperança e à espera de meia dúzia de sessões de quimioterapia de vos fazer saltar os olhos das órbitas... agora imaginem-se com vómitos e diarreia, com dificuldades em respirar. Quem, de vós, é que  insistiria em assistir jocosamente  ao espetáculo? E quem de vós é que iria dar gargalhadas? Qual de vós é que iria ter disposição e arranjar "tomates" para entrar no elenco? Teríeis, vós, "tomates"? Permitam o meu direito à dúvida! É um direito que me assiste.

   Se desejarem organizar uma paródia sobre a morte, podem convidar-me, que eu dou facilmente o corpo ao manifesto - a morte é um bem e uma certeza. Para uma paródia às leucemias, eu dispenso - o cancro é uma agrura e uma dúvida, tal como o vosso espetáculo. 

   Ainda assim, desejo-vos um espetáculo muito caridoso...

  Pap...

P.S. Já agora, podem sempre ler o comentário que o P.P. produziu mais abaixo. Não foi combinado!papagaio.jpg

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