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Giló - O Papagaio Indiscreto

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Da Cozinha para a Lavandaria

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 A culinária ultrapassou a fronteira do imaginável. Há meia dúzia de anos cozinhar era coisa cinzenta, desprestigiante, foleira, para gente mais ou menos menor que não almejava ter um outro rumo mais elevado de vida, que não fosse satisfazer serviçalmente os estômagos dos outros.  Hoje, ficar atrás dos tachos e panelas granjeia estrelas Michelin e entra na moda diária, febril, obsessiva,  onde homens e mulheres - ironias! -  se espezinham para ocupar os espaços de maior destaque.

    Ficar à volta de um fogão deixou de ser um terreno sujo e pantanoso, para ser visto como atividade cultural, intelectual e de  bons rendimentos. Há meia dúzia de anos, a mulher subjugava-se,  perdendo o dia a cozinhar para o marido e para os filhos, qual escrava amordaçada. O chefe, esse, era completamente ignorado e empreendia turnos de doze horas, sem que ninguém notasse que ele  existia e fazia falta.

   De  um dia para outro, as fritadeiras e caçarolas deixaram de ser repugnantes, de sujar a roupa com nódoas de gordura e poluir o ar à volta com cheiro a fritos e refogado. Fazem-se sessões de degustação em bibliotecas, tiram-se licenciaturas em sopas, escrevem-se centenas de livros sobre  mil maneiras de confecionar pornograficamente a mesma receita e colocam-se os miúdos a cozinhar, de faca na mão e grelha a gás ligada, em programas de televisão exaustivos, porque é uma forma chique de criar currículo precoce numa atividade milionária, continuamente em expansão e com futuro garantido. As pessoas acotovelam-se para chegar primeiro à cozinha e roubar o melhor lugar. Surgem esquisitas e curiosas "profissões" e pseudo-atividades ligadas ao ramo, desde  viajante crítico culinário profissional a caixeiro-blogger, calcorreador de restaurantes, passando pelo maldizedor e bemdizedor-gourmet de fim de semana, pago a peso de ouro, por revistas e outros interesses.

   Até aqui, tudo mais ou menos bem - a mulher, ela própria, já não se sente diminuida no seu papel, imagine-se!, se lhe falam em cozinhar! Aquilo que seria sinónimo de AFRONTA, passou a ser desejo de estar À FRENTE! E em píncaros dos pés! Faltará saber é quando é que esta febre desmesurada, que atacou a vida à frente dos fogões, passa para os cuidados paliativos, para o apoio aos idosos, para a lavagem da roupa diária ou para o ramo das faxinas domésticas. Uma licenciatura em arrumações, engomadoria e varrimento de escadas dava um jeito do caraças à sociedade... (candidaturas M/F).

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