Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Giló - O Papagaio Indiscreto

Aqui no Papagaio e no Sapo Blogs outra vez? Pá! Vão à praia, façam amor com a(o) namorada(o)... evitem é perder o vosso precioso tempo neste botequim! Podiam, pelo menos, ter o bom gosto de escolher outro blog Papagaio

Excerto II de "Os muros...", de Alexandre Dias Pedro

   

texto.jpg

Denegação

Quando confrontado com a notícia de que é portador de um caso mortal, o Ser recusa-se a aceitar a totalidade ou parte do que lhe é comunicado. Um estado de choque incrédulo. Esta fase tem como função permitir uma progressiva aceitação da realidade.

    Saía de noite e entrava já nem o dia fazia ideia que o tinha sido. De rastos. O corpo sofrido. Bambo. O bucho a arrotar a aguardente e vinho. E sentava-se à mesa com os dois. Sorviam o caldo em silêncio de palavras, refeição que decorria entremeada com conversa quase nenhuma.

 – A monda? – perguntava ela. Baixavam os dois a cabeça e ele, depois de a ter olhado vagamente, largava duas palavras impercetíveis, que lhe pareciam sair a ferros pela boca. A resposta sairia tardia e indisposta. Ficava essa quase ausência de réplica, enrolada em ondas de saliva que aprisionavam a fala e denunciavam a indiferença e a rudeza daquele homem; e quase uma vez mais tudo meio por responder. De cabeça baixa, novamente, depois de um segundo relance, breve e tímido. O caldo continuamente sorvido, naquele momento com algum estrondo, talvez para apagar o som das perguntas inocentes e incómodas da mulher, que não ganhavam naquelas paredes qualquer som que fizesse ricochete nelas e que guiasse e oferecesse um pouco de piedade sobre o vazio confrangedor. Em seguida, pelo meio do cabelo oleoso e poido, passava o homem a sua mão sobre o centro, em direção à nuca, e a resposta parecia, finalmente, sair por ali, pelo gesto cansado, suado e sofrido das mãos, que ganhavam fala. Ficava tudo dito, sem que quase nada se dissesse. O bago e o grão estavam bem. A monda estava bem. Que raio de pergunta! Por certo que estava! E continuavam a engolir caldo e vazio. O hálito a bagaço, esse,  não fazia cerimónia e desprendia-se da boca sem pedir autorização, inundando a cozinha. A pobre sopa levava sempre que tempos a disfarçá-lo. O puto ficava sossegado, a segurar o prato e  a admirar os últimos troços de feijão verde, que morriam inertes naquela praia de pequenos vegetais cozidos. Embebidos no molho que ia e vinha, ondeava. Os três olhavam dentro dos pratos, fixamente, ato de pudor e fé pagã, à espera de algo que parecia não querer chegar. Era um suspense demorado, como se o mundo se fosse despejar todo ali, no fundo do talher, e as respostas às inquietações tudo e nada mundanas se resolvessem boiando no abismo do caco barato e tosco que fazia de loiça de jantar.

     O pai levava a mão ao bolso, naquele tempo, puxava e enrolava uma barba trazida do chão, acendia o petilho e ficava a fumar, distraído e calado, trocando o cheiro a etilo pelo seco e árido bafio a milho queimado. O gato parecia comer-lhe a língua sempre e a quase toda a hora. Só o excesso de pinga lhe arrebitava, ocasionalmente, a conversa; mas nessas horas bem que até poderia ficar calado e parado! Um ralhete, um empurrão, por vezes o serviço completo de sova, por nada de nada. Só irritação, à mistura com burusso. Deitava-se, de seguida. Nem um: “- Boa noite, Pedro”- e a tal de fralda da educação que dava ao menino ficava novamente por mudar. A mãe trataria de tudo o resto que viesse a ser preciso, os necessários de dentro e de fora: as roupas para o frio, as malgas e colheres do jantar, o remendo na meia do miúdo e as finais palavras de agasalho contra o medo do escuro. O bálsamo verbal feito de amor materno, botica de afeto à prova de aspereza sacana da noite fria; químico benfazejo de alento, a pensar no dia que haveria de aurorear no fosco da manhã seguinte. O pai já se retirara, depois da pinga  pouco inocente e do tabaco. O infante dormia, consolado e amarrotado, entre as preces doces e ternas da candura da mãe e os gritos semeados pelas mãos medonhas do pai…

A. D. P.