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Giló - O Papagaio Indiscreto

#Aqui no Papagaio e no Sapo Blogs outra vez? Pá! Vão à praia, façam amor com a(o) namorada(o)... evitem é perder o vosso precioso tempo neste botequim! Podiam, pelo menos, ter o bom gosto de escolher outro blog #

Ricardo C. Pereira - As portas fugazes

ricardo c. pereira - contos.jpgRicardo C. Pereira

 

SEPHER IETZIRAH

     Hoje tive alguns problemas com o projeto. Aos meus olhos ele possuía a luminosidade de uma obra acabada, e bastava muitas vezes contemplar como as ideias se encaixavam de um modo quase físico para que eu contivesse o ímpeto de tomar a matéria e conformá-la à minha vontade. Mas havia uma espécie de frémito vindo das obscuras camadas do devaneio, dos subtis modelos em que repousava o meu inativo contentamento. Ele vinha, esse incómodo, com os seus chamados inarticulados e intoleráveis, de modo que precisei tomar uma atitude. Escolhi As Letras, as pequeninas e impetuosas artífices com as quais me entretinha em silêncio, guardadas que estavam numa caixa dourada, apropriada aos contos fantásticos. Parecia haver chegado a hora, e quando levantei a tampa mais uma vez, elas não se moveram, acreditando em mais um alarme falso — tanto já haviam alimentado a esperança de dançarem e, enredando-se, gerarem formas das quais o deleite seria a consequência inevitável, esperança sempre malograda pela minha inércia e doentio autocentramento.

  Disse-lhes: “É hora”, e elas se animaram, saindo, uma a uma, do recetáculo. Puseram-se à minha frente, esperando uma ordem, como crianças cheias de vontade, mas sem qualquer orientação. Foi um momento difícil. Porque o projeto, antes tão bem delineado, assumira, num canto imprevisto e pouco iluminado da minha omnipotência, a precária compleição de nuvem. Pensei em dizer às garotas “Alef, Beit, meninas, vamos respirar um pouco e voltar à caixinha, certo?"

in "As portas fugazes", de Ricardo C. Pereira